
A lua estava cheia, enorme, mostrando toda a imponência que a caracterizava. Estava no seu auge, no auge do poder. A Bruxa vestiu o seu manto negro e, mais uma vez, como em todas as luas cheias, embrenhou-se na bruma da floresta. Porém, ao contrario das outras vezes, não se dirigiu à orla do bosque para se encontrar com o Humano. Desta vez, os seus passos seguiram o trilho até ao coração da floresta, em direcção á clareira iluminada por uma fogueira alimentada pelos ramos secos que a natureza oferecia. Era o solstício de Verão. Hoje, pertencia à floresta e não ao Humano. Elas já lá estavam. De mãos dadas, a olhar a lua de olhos fechados, sentindo a luz dos seus raios trespassarem-lhe os sentidos. Aproximou-se e de imediato elas olharam-na com um sorriso aberto. - Finalmente! – proclamou entre risos a Fada abraçando-a com carinho – já tinha comentado com a Elfo que se calhar tinhas caído novamente nos braços do Humano. A Bruxa sorriu. A Fada era encantadora naquele seu jeitinho espontâneo. Era linda e tinha a arte de, com as suas mãos de artista, pintar telas encantadoras em cada amanhecer, com o desabrochar das flores. Invejava aquele dom que ela tinha de pintar a aurora e decorar os prados, vales e bosques com aquelas cores deslumbrantes que ela nem sabia existirem. Só quando ela as combinava reconhecia o feitiço da sua existência. E era tão linda! Tão sedutora como encantadora . Todos os seres, mágicos ou não, a olhavam como se ela própria fosse uma das obras de arte que criava. - Olá, Bruxa – a Elfo pousou o livro de feitiços que segurava e estendo-lhe também ela os braços, envolvendo-a num circulo que a fazia sentir segura, como se nada, nem ninguém, a pudesse atingir – estás linda e já morria de saudades tuas. - Eu também – murmurou a bruxa, repousando o seu rosto naquele ombro que a aconchegava – estás sempre comigo, mas sentia a falta do teu abraço. A Fada e a Bruxa cruzavam-se frequentemente no bosque , cada uma no seu desempenho e, muitas vezes, em tarefas que se complementavam. A Elfo estava mais longe, mas apenas no espaço, porque ambas eram centrais na vida da Bruxa. A Elfo era também um ser deslumbrante, menos espontânea, mais cautelosa, ponderada nos passos que dava, fundida no conhecimento adquirido nos livros que lera. Mas era igualmente bela e sensual. Igualmente intensa e perturbadora. A Bruxa admirava-as, enquanto seres e enquanto suporte e porto seguro das suas emoções neste novo mundo a que agora pertencia. - Vamos? – a voz serena da Elfo encaminhou-as para o centro da clareira, onde formaram um circulo perfeito, em volta da fogueira, entrelaçando as mãos e venerando a lua que as protegia. Em silêncio, proferiram as evocações que apenas os seus sentidos conseguiam ouvir. - Traz-me o meu caminho – ecoava a Elfo - Leva-me ao amor eterno – repercutia a Fada - Ensina-me a amar de novo – suplicava a Bruxa
E as três, debaixo daquela lua, cada uma delas tão diferente, cada uma delas com percursos tão desiguais, mas mesmo assim, naquele momento, eram unas, unas numa só, percebendo-se e fundindo sentimentos e emoções num só ser. Cada uma delas tinha sofrido à sua maneira. Uma, porque fora mal amada. Outra, porque a haviam amado demais. E outra porque a haviam amado demais e por isso a haviam amado mal. O ritual terminou, e a Bruxa, exausta, regressou à sua cabana, perdida no meio da floresta. Regressou sozinha…mas sentindo-se profundamente acompanhada.
- Postado por: Nanda às 22h36
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